Tentativas Literárias

Parte I

 

Ela era simplesmente o que ela era. Nasceu onde nasceu e vivia onde dava, onde tinha comida. Arrastava-se por onde tivesse a possibilidade – o chão.

Preferia ratos, mas caso estivesse em falta comia qualquer coisa mesmo. Geralmente essas ‘coisas’ eram pássaros ou seus ovos. Caso não arranjasse, se arrumava com insetos mesmo.

Não tinha preferências de nada. Não escolhia quando trocaria de pele ou quando dormiria. Isso simplesmente acontecia naturalmente e ela não precisava se preocupar.

 

Uma noite – era assim que eles chamavam quando não tinha aquela luz forte que atrapalha a vista – ela fora à praia para tentar achar alguns ovos de pássaros. Os ratos estavam bem escondidos esse dia, devia ser a época do acasalamento dos mamíferos suculentos.

Tinham uns humanos sentados, bem agasalhados, ao redor de um calor forte e luminoso. Era um calor envolvente e que a aquecia, apesar de não sentir frio quase nunca. Envolvido pelo calor e pela grande luz – ou lua – ela estava em transe olhando para as pedras e sentindo a areia massagear sua pele, sensação que tanto gostava.

Notou que na pedra havia algo a mais. Era algo belíssimo, como ela nunca havia visto antes. Era uma semelhante, só que semelhante, só a espécie. Era mais bela, robusta e colorida. Exalava uma cor fenomenal e um aroma incrível, que era quase tátil, mesmo há uma distância relativamente longa. Seus instintos a diziam para se aproximar, porém ao fazê-lo, um humano se levantou, gritou algo em sua língua e atirou uma garrafa de vidro em sua direção. Isso a atiçou, fazendo-a esquecer da figura belíssima e só querer atacar e injetar veneno no sangue daquele humano imundo e impuro. Preparou o bote, mas errou por pouco. Ao rearmar o bote avistou novamente a figura bela e por um momento se hipnotizou e embasbacou: ela estava pulando graciosamente em direção ao mar. Era quase um vôo de um belo preá. Mergulhou com a divindade de um golfinho e desapareceu atrás das pedras.

 

Ela voltou para seu abrigo rastejando pelo chão frio, ainda com a cabeça pequena presa à figura da pedra. O sentimento era de incredulidade. Como algum ser da mesma espécie podia ser tão gracioso. E como poderia voar e nadar daquela maneira?

 

No outro dia, logo que seus instintos a acordaram ela fora procurar uns ratos. Tivera sorte e encontrara um assim que saiu da toca. Perseguiu-o e abocanhou com somente uma tentativa. Engolira o rato inteiro, assim como sempre fazia, e foi esperar a fome chegar novamente na areia quente daquela praia que tanto gostava

Ao olhar para a pedra lembrou-se da noite de ontem e dirigiu-se até lá, com a esperança de encontrar o ser belo e descobrir seus segredos.

Essa curiosidade era algo que nunca experimentara, era algo totalmente novo em seu ser, mas ela não ligava. Não se apegava a nada a não ser aquela praia. Nem os ratos ou ovos de pássaros.

 

Contornou a pedra e avistou uma pequena cabana. Era quase como uma cabana humana, mas era menor e ao mesmo tempo, imensa. Caberiam umas 20 d’elas bem acomodadas.

Chegou até a porta e cheirou. O sentido não a avisou de nada perigoso, então ela deslizou pra dentro da cabana.


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