Tempos Modernos I (ou como não vivemos)

Acordamos cedo. Cedo demais, mas já atrasados.
Pulamos da cama, enfiamos as roupas. Com pressa, mas elas já estão escolhidas e separadas para ficarmos impecáveis (ou não).
Engolimos qualquer coisa, chamamos de café-da-manhã.
Pegamos o carro/ônibus/helicóptero/pés e vamos trabalhar.
Apertamos parafusos complexos, que necessitam de senhas e faculdades. Telefonamos, questionamos, obedecemos. pausamos para o café. voltamos a apertar parafusos. alguns exigem mais tempo, outros menos. alguns exigem mais pessoas, outros menos.
pausa para o almoço. (graças a deus, duas horas livres uma hora livre) comemos, conversamos, cochilamos.
voltamos a operar os apertadores de parafusos. pausa para o chá. apertamos como nunca, ansiosos para o horário de….acabou o expediente.
vamos para casa vamos para a escola, mas não sem antes pararmos para um lanche qualquer, engolido às pressas, sem ser degustado.
anotamos maquinalmente, ouvimos desatentos a opiniões ridículas que os professores importam de qualquer idiota que pareça inteligente disserem. absorvemos como se fosse o único ponto de vista correto e ignoramos todos as outras interpretações. todas estão erradas, assim como as suas.
pausa para o café.
voltamos a escutar o que nos é necessário para apertarmos parafusos mais complexos. e termos mais dinheiro que não teremos tempo pra gastar. pegamos o carro/ônibus lotado/pé. chegamos em casa. engolimos qualquer coisa com a cabeça na água esquentando. nos banhamos e caímos na cama.

mais um dia comprido cumprido.

dessa maneira, sem maiúsculas ou respiros, vivemos o dia a dia. vivemos sem a perspectiva de ser feliz a curto prazo. sempre o futuro, o glorioso futuro de luxos e tempos livres. Só nos esquecemos que estamos viciados nesse ciclo interminável, na rotina massante que acalma os nervos de todos, evitando conflitos e questionamentos.

Evitando positividades e felicidade de verdade. ‘Achamos’ felicidade em pequenas coisas como um chocolate na hora do café ou uma música agitada e querida na hora do almoço. ou um livro qualquer, um post em qualquer blog ou a notícia da estreia de uma peça de teatro que você não terá tempo pra ver.

não há motivo para vivermos, não há felicidade completa na rotina semanal….
…e nem no fim de semana.
Enganamos a nós mesmos em dois ou três dias. Lemos um livro, vemos um filme, bebemos com amigos ou dançamos em algum lugar longe e cheio.
Nos soltamos e nos sentimos felizes de verdade, com o cérebro transbordando de endorfina.

Mas a endorfina é pura enganação, é a simples válvula de escape da pressão saindo por um orifício qualquer, em direção do vácuo.

não há felicidade completa na existência em sociedade at all

~ por airomunhoz em outubro 2, 2008.

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