Loucura Aceitável?
Ele andava ouvindo vozes que o fazia se sentir culpado.
‘Faça isso, não faça isso, vá a tal lugar, fique longe de outros. ‘
Sempre achou comum até confidenciar isso a um amigo, que o chamou de louco.
Começou a ir a um psiquiatra.
Visitava Dr. Barbosa uma vez por semana. Às vezes duas.
“Sinta-se a vontade, deite e relaxe. Olhe fixamente para o ponto azul na parede e concentre-se em minhas palavras. Quando eu contar até 3 você voltará a ser recém-nascido. Ouvirá novamente as canções de sua mãe, sentirá ela ninando você, certo?”
“Certo”
“1… 2… 3.
O que você está sentindo?”
“Sinto sono e escuto uma canção. É bonita e profunda. Sinto amor passando dos braços de minha mãe para todo meu corpo.”
“Certo….” Disse Dr. Barbosa, fazendo uma anotação em uma ficha.
“Você ouviu essa música mais alguma vez em sua vida?”
“Escuto ela toda vez que vou brincar na casa do vizinho. Minha mãe não me deixava brincar com ele, mas eu tocava sua campainha sempre que ela saia. Era uma sensação boa, mas sabia que era errado.”
“Certo….O que mais você sentia quando ia ao seu vizinho?”
“Eu lembrava que, se minha mãe descobrisse, não ganharia Ovo do Coelhinho da Páscoa. E nem presente do Papai-Noel.”
“Porque não ganharia?” Perguntou entediado o Doutor, anotando as respostas esperadas na ficha.
“Estou desobedecendo a mamãe, estou sendo levado. Sou um menino mau.”
“Correto… Você teve essa sensação mais alguma vez?”
“Toda vez que eu ia ao banheiro com a revista que eu peguei do meu tio. Minha mãe dizia que papai-do-céu via tudo sempre. Eu não queria que ele visse o que eu fazia com a revista. Não queria que ele soubesse que eu tinha roubado a revista e que via ela enquanto eu…”
“Certo. CERTO.” Interrompeu bruscamente o Doutor.
“Em que outras situações você sentiu esse medo desse papai-do-céu?”
“Sempre que eu deixava de ir a igreja nos domingos para jogar futebol. E mais tarde, quando eu chamava garotas para ir para minha casa e as levava para meu quarto, sem que minha mãe soubesse. Também quando eu pensava em coisas feias.”
“Certo” Disse o Doutor fazendo as últimas anotações e fechando sua ficha.
Respirou fundo antes de finalizar.
“Quando eu disser ‘Acorde’ você irá despertar. 1… 2… 3. Acorde”
“Onde eu estou?” Disse, despertando meio atordoado.
“Você está no meu consultório. Fiz uma analise em você baseado em depoimentos inconscientes. Está pronto para descobrir seu problema?”
“Não, não estou.”
“Não?” Perguntou o confuso, mas não impressionado Doutor.
“Certo… Sua conta será enviada por correio.”
“Obrigado Doutor.” disse, deixando o consultório onde, em cima da mesa, na ficha recém fechado, lia-se: ‘Cristão‘.

Nana Nenem, que a cuca vem pegar
quem eu? disse isso em Junho 8, 2009 às 5:57 pm