Breve explicação desnecessária:
Esse é um texto baseado na obra “A Cartomante” de Machado de Assis. Ele foi feito como uma forma de pré-roteiro para o curta “Arcanum“, desenvolvido pela Rbell como Projeto Integrado do curso de Mídias Digitais.
Parte I
Acendeu um cigarro e deu um beijo nela. Pensou em como aquilo era arriscado e bonito enquanto enchia seus pulmões com fumaça.
Ela estava inquieta demais para estar pensando na mesma coisa, então ele perguntou o que havia, recebendo em troca uma resposta evasiva.
Depois de insistir, ela confessou que havia consultado uma cartomante. Ele riu, tentando em vão não ser grosseiro.
Na verdade também tinha muito medo de tudo aquilo, mas não desceria a tal ponto pra se sentir mais tranqüilo. Não recorreria a uma qualquer com cartas de desenhos coloridos, mesmo recebendo ameaças anônimas.
Pensou em silêncio e resolveu mostrar pra ela o que tirava seu sono há duas semanas. Jogou a foto na cama tentando parecer seguro, mas no fundo sabia que havia deixado um pouco de medo escapar no desvio do olhar. A frase “EU SEI DE TUDO” cortava a foto de um beijo como uma foice arrancava uma cabeça e fazia espirrar sangue desesperado pelas entranhas dos dois.
Ele pensou que ela estava sendo covarde preferindo ir embora, mas não fez questão de insistir para ela ficar. Não tinha mais forças.
Uma vibração lembrou que deveria ir embora. Abriu o celular e sentiu uma mão grosseira esmagando seu coração: “Quero você aqui às 20h. Não se atrase.“
Ele deitou com dificuldade de respirar, pensando em todas as possíveis desculpas para não ir, esquecendo-se da hora. Não poderia faltar, o risco era grande demais. E ele não conseguiria lidar com mais uma perda.
Levantou, vestiu a calça e abotoou a camisa. Acendeu outro cigarro com a mão trêmula. Se fosse, deveria ir mais calmo. Talvez não fosse nada.
Apesar de absurda, teve uma idéia. Apagou o cigarro no cinzeiro e saiu, batendo a porta.



