Aberto para balanço

•dezembro 29, 2011 • Deixe um comentário

Ter um dia feliz e outro triste. Uma hora linda e outra triste. Oscilando, como subidas e descidas de uma montanha-russa. Esse parque de diversões patético que engloba esses meus sentimentos tolos e fortes de mais para controlar. Felicidade e tristeza no mesmo carrinho, subindo e descendo desgovernadamente, esbarrando em tudo e jogando um contra o outro, chocando sentimentos.

Tristeza é importante, assim como os anos ruins.
Ah, a ilusão do tempo, da divisão de anos. Do “depois desses 10 segundos é um ano novo, vida nova!”. Melhor assim, faz acreditar e quando a fé é profunda, acontece.
Peço pelo menos que aconteça na consciência, e não por inércia. Com mais poesia e menos necessidade de justificar tudo. Viver o “feliz ano” inteiro em cada minuto. Pensa que acontece.

Poesia é importante, assim como os dias ruins.
Romantizar as palavras e sorrir com o peito cheio de emoção. Tolo, mas cada dia mais necessário. Deixar escorrer a lágrima quando despertada com verdade. Gargalhar e chorar, ascender, acender e apagar.

Escuridão é importante, assim como os momentos ruins.
Velas que marcam os anos ruins com cicatrizes profundas, deixando o âmago da dor exposto para poder secar quando a luz voltar. E ela volta, como uma fagulha, um milésimo de segundo no tempo infinito do medo.

Acidentes são importantes, assim como os milésimos de vida: A verdade sobrepondo a importância do sofrer, as freadas bruscas e o choques contra os muros.
Choques são necessários para seguir em frente ou mudar o caminho.

Literal ou não, triste ou feliz, real ou não, melhor amar vivendo, sem fechar para balanço. Viver sendo. Esses momentos, essas pessoas.

Se é falando que me oriento da confusão, quero falar as palavras parar pessoas ouvirem. Elas que descartem se não quiserem usá-las.

Sobre Espontaneidade

•fevereiro 3, 2011 • 3 Comentários

Um ídolo:
Alto e magro, geralmente com uma camiseta engraçada. Óculos extravagante e uma risada característica. Humor ácido e onipresente.

É estranho todas as pessoas que eu considero ídolos serem de carne e osso e sorrisos simpáticos de bom dia, e não aqueles grossos que se escondem atrás de um livro ou uma música e nunca fazem uma piadinha sem graça pra você quando você acorda do lado contrário da cama e vai trabalhar emburrado.

Tive o prazer de conhecer um desses meus ídolos quando estagiei em uma agência. Ele era meu chefe e a pessoa que mais iluminava aquele lugar que não tinha ar condicionado. Era o tipo da pessoa que você inveja por estar sempre de bom humor e sorrindo. Nas poucas vezes que eu o vi preocupado com algum prazo ou com o render que não funcionava ele ainda conseguia sorrir e fazer uma piadinha sobre uma das muitas músicas estranhas (e ótimas!) que ele escutava. Estava sempre focado, mas com pelo menos +3 abas de conteúdos variados abertas no navegador. Sorria pra você e perguntava – realmente querendo saber – se você estava bem. E se você resolvesse mentir dizendo que sim ele logo arrastava a cadeira até sua mesa e insistia na pergunta até você dizer o que te afligia naquele dia.

Em um dia memorável, a entrada da minha linda cidade alagou e eu fui pra casa dele jogar videogame, beber cerveja e ter conversas sobre coisas supérfluas e que traduzem a alma e dá sentido à nossa vida. Dormi no sofá, com o celular marcado para despertar 10 minutos antes do horário de ir trabalhar. Acordei, comi um bolinho de queijo gelado e coloquei o tênis para ir ao trabalho. Ao levantar vi em cima de uma cadeira uma das camisetar engraçadas dobradas com um bilhete em cima: dizia basicamente “não queremos que você vá trabalhar parecendo um mendigo, certo? Certo. Então peguei minha maior camiseta, espero que sirva. Até daqui a pouco no trabalho!”. Nem preciso dizer que guardo esse bilhete até hoje.

Bom, nessa semana em que ele completa 24 primaveras eu me senti na obrigação de escrever isso e dizer que ele é um dos meus maiores exemplos. Digo em claro e bom som para todos que estão dispostos a ouvir que se pudesse ser outra pessoa, seria ele. Quando estou de mau humor penso em como ele me saudaria ao chegar ao trabalho e tento sorrir. Em momentos delicados penso o que ele faria e sempre tento agir com o maior carinho possível.

Pra terminar, deixo meus parabéns: Apesar de não nos vermos mais todo dia, te mantenho na minha vida sempre que acordo para tentar fazer um dia ser melhor que o anterior.

Café

•janeiro 11, 2011 • 2 Comentários

Ele mexia o café vagarosamente, sem se preocupar se estava quente ou frio, doce ou amargo. Estava de costas para a porta, somente esperando o barulho que indicaria que ela ia passar, sabendo que olharia, sorriria pedindo licença e pegaria um café. Girou a colherzinha de plástico mais uma vez e nem percebeu que derrubara algumas gotas de café na mesa e em sua camisa, manchando de marrom forte a madeira e o tecido claro.

“Oi, tudo bem? O café? Ah, ele ta como sempre, meio frio, mas eu gosto. Você gosta de café gelado? E de música clássica? Gosta de beijar na chuva, filmes românticos e passar a tarde toda conversando no sofá?”

Ouviu o barulho da porta e congelou por um momento. Será que era? Se virasse encontraria seu olhar e sorriria involuntariamente? Ela sorriria de volta e pediria licença, entre seus lindos lábios, para pegar o café? Ele diria algo, finalmente? A porta abriu e alguém passou.

Não era ela.

“Oi, o café tá sem açúcar ta? É? Eu também prefiro assim, puro. Você gosta de pão de queijo? E de dançar juntinho e ouvir música abraçados na cama?”

Tremeu um pouco a mão e percebeu que o café havia manchado a mesa a sua frente. Tentou limpar com um guardanapo, mas o café havia penetrado na madeira, adicionando mais uma gotícula marrom às outras, já plantadas lá antes, por pessoas desastradas. Percebeu que havia manchado a camisa e achou melhor voltar ao seu lugar. Virou distraído, deixando o café. Esbarrou em alguém.

“Desculpa….” ele falou sem olhar pra cima.

“Magina. Você esqueceu seu café”. Ela respondeu apontando. Ele corou e não conseguiu responder. A palavra simplesmente esqueceu como era ser pronunciada, tornando-se um amontoado de letras em ordem aleatória..

“…. …”

“Oi?”

“É…não…não era meu. Eu não tomo café.”

“Que pena, ia te chamar pra tomar um comigo. Bom, então até qualquer hora.” Disse passando por ele e apertando o botão ‘expresso’ na maquina vermelha. “À propósito, bonita camisa.”

Um ano, uma vida e um avesso.

•dezembro 14, 2010 • Deixe um comentário

Um ano e uma vida inteira pelo avesso.
(2010, o ano em que eu virei do avesso tantas vezes que nem sei mais quem eu sou.)

Principia ano, principia uma nova proposta e, por que não dizer, principia uma nova vida? Disposição para aprender com os erros e tornar o 10 em 9 mais um.  Mas nunca é como imaginamos…a vida tem a capacidade de pegar sua proposta de ano e destruir todas suas entradas, saídas e bandeiras.

Em um ano turbulento a vida virou do avesso mais vezes do que se imaginava possível, tornando a frase motriz para a pesquisa, dita nas primeiras horas, mais do que palavras: “Quem castiga nem é Deus, é os avessos.”

Castigos, lições e punhaladas no peito tiram seu chão e você nem percebe. Quando vê, não sabe mais quem é, nem quem ama, nem porque ama e nem o que é amar. Não sabe mais qual é o sistema de vida e morte e as toalhas de fim de semana estão todas rasgadas. Os conceitos de como mudar o mundo de cereja em cereja falham bem onde mais te fere: no peito transparente. E o coração te vira do avesso de tantas maneiras que toda a esperança é perdida.

A vida e o próprio amor vacilam e do labirinto não há mais saida que a neve.

Esse estado é tão avesso que não é possível ser traduzido em palavras. Nem após um dia cinza e uma noite salgada de lágrimas.

As lágrimas e a vida que foram esse 10 serviram para colocar mais fundo na pele uma certeza e determinação de que nunca se deve querer algo que não é libertação. Nem lirismo, nem palavras, nem o café de cada manhã.  “E se alguém duvida peço a quem corresponda que examine minha vontade e o peito transparente.”

Queria com todas as forças anunciar que disponho de cerejas escondidas, mas não posso. E é também impossivel concluir um texto que tem como proposta resumir o jogo triste que foi esse ano. Ano que virou todos os sentimentos do avesso e me fez não mais saber como é ter a eterna inocência de andar sobre os próprios pés sobre o elemento chão.

Prepotente, quero sempre cuspir sobre o chão e receber algo de volta da Terra, mas nunca esquecendo dessa bagagem avessa, eterna e infinita para esse mundo que tranforma nossa vida em uma maré que sempre nos leva para as águas do equívoco.

 

Pequenos Contos

•outubro 2, 2010 • Deixe um comentário

Pequeno conto II

Ele fumando um cigarro, ela tomando um sorvete. Ela passa, olha para ele até os olhos se encontrarem. Ele dá um trago despreocupado.
Ela termina o sorvete, joga o papel fora. Ele apaga o cigarro no tênis e coloca no lixo.
Eles entram no elevador juntos, sem se olhar. Ela aperta o 3, ele o 10.
Antes de descer do elevador ela olha para ele e sorri.

Pequenos Contos

•outubro 1, 2010 • Deixe um comentário

Pequeno conto I

Ela estava falando sobre a vida e reclamando da falta de amor enquanto ele tinha o olhar perdido nos carros que rareavam, apesar do horário de pico se aproximando.
Ela já havia percebido que ele não se importava muito, mas precisava falar.
Ele ouvia parcialmente, se perdendo em pensamentos.
Ela parou para ouvir uma resposta consoladora. Ele olhou para ela colocou a mão no bolso e disse: “Quer uma bala?”

Pequenos Contos

•setembro 30, 2010 • Deixe um comentário

Pequeno início de conto I

Ele olhou pra ela e esqueceu de tudo que havia acontecido dois dias antes.
Ela olhou pra ele pedindo um perdão discreto.
Ele arrumou seu cabelo e lhe deu um beijo na bochecha.
Ela virou o rosto dele.

Sutil

•junho 22, 2010 • 1 Comentário

Ele respirou fundo e abriu a porta, esperando o pior. Ele sempre esperava o pior nos primeiros contatos, como todos.

Ele: Confuso. Exibia suas cicatrizes com certo orgulho.

Falou um “oi” encabulado, passando rapidamente os olhos na sala. Seus olhos chocaram-se com o olhar surpreso dela.

Ela: Cabelos curtos, olhos e moletom verdes. Óculos pequenos, bem encaixados no rosto redondo e com imperfeições perfeitas. Era linda do seu próprio jeito.

Sentou-se encabulado por um contato tão profundo tão cedo: tinha medo de se expor demais, mas guardou uma foto daquele momento.

Algumas semanas depois não havia mais medo e a conversa acontecia naturalmente. Alguns meses depois o sentimento já existia e ia crescendo gradativamente, mesmo com os problemas que enfrentava no caminho.

Um dia algo de novo despertou-se e mudou algumas coisas entre eles. Outro dia isso ficou insuportávelmente claro e lindo, não cabendo dentro do peito e explodindo em sorrisos contidos (que dariam um texto só deles). Eles eram plenos.

Eles: Nunca houve uma conversa, uma definição. Houveram fotos, músicas e carinhos. Pernas e olhares. Mordidas.

Era o melhor acordo que podiam ter. O único possível. O que não dizia, mas era. Pleno. O que, de escrever, poderia escorregar e desaparecer no ar.

Soulmates Never Die

•junho 20, 2010 • Deixe um comentário

(texto lido em 18/06/10, na festa da minha irmã).

Nat,

Quando eu tinha 5 anos e falei “pai, quero um irmãozinho” nunca imaginei que hoje estaria aqui falando esse texto.

Eu queria um irmãozinho que eu pudesse roubar os brinquedos, brincar de brigar e jogar video-game. Mas eu não ganhei um irmãozinho, eu ganhei uma boneca, um anjinho de porcelana.

De porcelana pela beleza, mas que de frágil não tem nada.

Sempre me batia, mordia, beliscava e depois chorava falando “mãe olha o airo!” ou “ai ai airo!”.

Mas a gente sabe que essas brigas eram a forma que achávamos para mostrar nosso amor um pelo outro. Crianças não sabem falar “eu te amo”, mas conseguem mostrar isso de maneiras bem originais. As vezes até um pouco dolorosas.

Lembro que apesar de menina e mais nova, você sempre foi muito mais forte que eu, em todos os sentidos.

Como, por exemplo, quando eu estava no auge da crise existencial da adolescencia, chorando, você me abraçava e ficava em silêncio.
Um silêncio sabio de criança.
Ficava em silêncio pois não eram necessárias palavras: Você ali do meu lado me mostrava o que estava certo e o que estava errado. Me mostrava que caminho seguir e qual ficar longe. Me mostrava isso pelo amor, e não por palavras.

Engraçado que hoje você é uma mulher. E mesmo sendo uma mulher, mantém esse silêncio sabio de criança.

Nat, você pode não ser muito boa em matemática ou em ciências, mas você tem a melhor inteligência que alguém poderia ter: a inteligencia de manter-se criança, mesmo quando o mundo adulto tenta te afogar com muitas coisas ao mesmo tempo. Você mantém o olhar que consegue mostrar o erro sem deixar de dizer eu te amo. Você consegue olhar pra mim e saber exatamente o que eu estou sentindo e me falar “tudo bem, eu estou aqui”. Tudo isso sem palavras.

Eu acho que isso é muito mais do que um simples amor. É uma ligação de almas. Somos almas gêmeas no melhor sentido dessa palavra. E como diz uma de nossas muitas músicas: Almas gêmeas nunca morrem.

E para reforçar que eu estarei aqui sempre pra você, mesmo quando o mundo parecer completamente errado, e ainda fazendo uma homenagem aos tempos onde agente dizia eu te amo com uma pitadinha de dor, te dou um presente que vai estar para sempre comigo. E consequentemente com você.

Com certeza ele é menor do que os outros embrulhados naquela mesa, mas tem um tamanho gigante para mim e espero que signifique muito para você.

Soulmates Never Die

Soulmates Never Die

Estarei aqui para você. Nos momentos fáceis e difíceis. Como almas gêmeas devem ser.

Imersão

•março 23, 2010 • 1 Comentário

Despiu-se. Sabia que tinha que estar completamente nu para essa entrega.

Ritualisticamente foi até aquele armário forte e corroído por cupins e tirou alguns itens minuciosamente escolhidos – e os aceitou – pois sabia que não tinha mais volta.

Com as lágrimas escorrendo sem controle pelo seu rosto passou a corrente em volta de seu tornozelo direito e fechou, com um clique seco. Não tentava conter suas lágrimas pois sabia que eram essenciais para a entrega completa.

Fez força para pegar o peso do chão, não se preocupando com o esforço empregado pelos músculos – afinal, eles foram preparados para esse momento.

Parou na borda daquela piscina e tentou achar o fundo, mesmo sabendo ser inútil.

“Ah, teimosia! você tinha que vir se despedir, não é?”

Com essa frase ecoando em sua mente deu um ultimo sorriso dessa vida confusa. Respirou fundo e arremessou-se no abismo, abraçado ao peso, totalmente entregue e pronto para a queda infinita que o levaria para o lugar que ele sabia pertencer.

Uma das únicas certezas de sua vida sem sentido.

 
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